Parte final – Um Vet No Aconcágua

Nossa marcha começou às 8h da manhã e seguia em um bom ritmo! Longos trechos de subida, alternados com curtos trechos de plano ou leve descida. Estávamos subindo cerca de 800 metros na vertical, e que daria cerca de 20 quilômetros de trilhas.

Seguindo um conselho de Tito, comecei a administrar minhas energias. O segredo, segundo ele, era não deixar a frequência cardíaca disparar. Se ela ameaçava disparar, eu procurava diminuir o ritmo da caminhada para compensar.

E assim transcorremos bem as primeiras 6 horas de escalada. A paisagem realmente era incrível. Montanhas nevadas por todos os lados. Um trecho em especial me chamou a atenção, já próximo ao cume do Cerro Bonete a 5 mil metros de altitude: Os chamados Penitentes!

Eram paredes de gelo que se erguiam do chão. Segundo Tito, uma ocorrência exclusiva do Aconcágua, relacionada com a extrema falta de umidade do ar, que criava estes artefatos de gelo.

Grassi atravessando os Penitentes

Grassi atravessando os Penitentes

Além disto existe outra peculiaridade que cria dificuldade para se escalar nesta região. A coluna de ar e consequentemente de oxigênio é proporcionalmente menor no Aconcágua que no Everest, considerando-se a mesma altitude nas duas montanhas.

O Everest, por estar em latitude mais próxima da linha do  Equador tem um coluna atmosférica com vários quilômetros a mais que o Aconcágua, que está mais próximo dos trópicos. Ou seja, a quantidade de oxigênio disponível para se respirar no Aconcágua a 7 mil metros, equivale a mesma quantidade no Everest a 8 mil metros. Isso pode ser comprovado também pelo fato de praticamente não existir vegetação nem fauna, no Aconcágua a partir de 5 mil metros de altitude.

Nesta hora eu já contava mais de 8 horas de subida, e estava ficando para trás do grupo. Mesmo com a tática de economizar energia e não deixar subir a frequência respiratória, estava difícil para mim acompanhar nosso grupo de atletas. Tito mais uma vez ficou comigo e após atingirmos cerca de 5 mil metros de altitude, resolvermos iniciar a decida na frente dos outros. E assim foi. Continuamos nossa marcha mas agora em descida, o que deveria ter sido mais fácil, mas não foi. O cansaço acumulado e a falta de sono dos últimos dias começou a cobrar seu preço. Mesmo da descida precisei andar devagar, parecia que as forças estavam se esgotando. Mais uma hora de descida e fui alcançado pelos outros escaladores que iniciaram a descida bem depois de mim. Novamente fui ultrapassado por quase todos eles. Apenas Guilhermo, o mexicano, também ficou para trás além de mim.

Agora eu já contava 12 horas de caminhada e meus passos estavam bem lentos. Comecei a distinguir o acampamento a cerca de mil metros de distancia, que foram os mais longos da minha vida. Nesta hora um passo meu não vencia mais que 40 centímetros de cada vez. Talvez o tamanho das pesadas botas de neve.

Tito queria carregar minha mochila, para me ajudar. Não aceitei! Mais algumas dezenas de metros ele insistiu e eu aceitei. Minhas forças haviam acabado de uma forma que eu jamais imaginei. Meu desejo era sentar no chão e ficar ali. Não podia, pois já estava escurecendo e nevando. Comecei a tossir. As pernas não obedeciam mais. A mente também não funcionava direito. Por mim eu ficaria parado ali para sempre. Era um vazio só o que eu sentia. Tito me acordou com seu chamado insistente: Ilsson, bamo, bamo!

Aparecia mais algum resto de energia e eu conseguia dar mais alguns passos tímidos! E assim, após um tempo que me pareceu a eternidade, consegui chegar até nossa barraca refeitório! Diferente da outra vez que fiquei exausto e me joguei no chão, desta vez consegui sentar. Era diferente! Não era ruim! Eu não estava ofegante! Nem puxando ar de boca aberta, nada disso! Estava inerte! Sem energia nenhuma! Agora sentado e com o olhar perdido!

Quando dei por mim, os guias haviam chamado a equipe médica do acampamento!

Após um exame inicial, fui carregado por dois guias até a tenda médica! Tomei uma injeção de corticóides, dois comprimidos de diuréticos e fiz uma inalação!

As Dras. Vera e Flor me diagnosticaram com Mal da Montanha! Auscultaram meu pulmão e encontraram um edema pulmonar. Era para mim o final da escalada! Seria preciso descer a baixas altitudes para que meu organismo se equilibrasse novamente! Chamaram pelo rádio e pediram um helicóptero de resgate! Dormi no alojamento médico e assim que o sol nasceu ouvi o barulho do helicóptero pousando! Já me sentia melhor mas a Dra Vera foi categórica. Disse que eu melhorei por conta dos medicamentos, mas que se insistisse em continuar subindo, os sintomas de edema pulmonar e fadiga extrema iriam piorar e um resgate seria mais difícil!

Resignado, enfiei a mão dentro da minha mochila e tirei as 3 bandeiras, propósito da minha escalada! A bandeira da SVB – Sociedade Vegetariana Brasileira, a bandeira do FNPDA – Forúm Nacional de Proteção e Defesa Animal, e a bandeira da Anclivepa – Associação Nacional dos Clínicos Veterinários de Pequenos Animais e as entreguei para 3 amigos que eu fizera: O brasileiro Tadeu, o argentino Francisco e o Mexicano Guilhermo.

Eles agora estavam encarregados de terminar o que eu não consegui e levar estas bandeiras e o que eles significam ao ponto mais alto do planeta fora dos Himalaias! Em seguida fui levado ao helicóptero que imediatamente decolou!

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Todas as paisagens que eu vira por baixo, enquanto caminhava, agora eu via de cima, enquanto o helicóptero sobrevoava os picos nevados do Aconcágua!

Claro que fiquei triste, mas valeu a pena mesmo assim.

Agradeço o apoio de todos que torceram por mim! Peço desculpas por decepcionar os que acreditaram que eu conseguiria, e prometo que este não foi o fim!

Pico do Aconcágua

Pico do Aconcágua

Vou descansar, me preparar melhor, e na próxima temporada, tentar novamente!

Veterinário Wilson Grassi

Quinto dia parte A – Um Vet no Aconcágua

 

Mais uma noite ruim! Na divisão das barracas, fiquei alojado junto com o suíço Lio. Durante toda expedição Lio nunca falava nada! Nem ninguém lhe perguntava nada. Magro, cabelos e bigodes brancos, Lio tinha fama de sinistro! Mas era um dos melhores escaladores, sempre a frente do grupo. Um preparo físico invejável! Havia ido de bicicleta de São Paulo até Mendoza, na Argentina, quase dois mil quilômetros em 30 dias pedalando.

Ao entrar dentro do meu saco de dormir e antes de dizer boa noite, arrisquei e pedi licença a Lio para fazer uma pergunta pessoal. Qual era a idade dele? Lio prontamente não só respondeu 57 anos, como imediatamente passou a conversar sem parar me contando toda sua vida. O que ele não falara em uma semana resolveu falar para mim na hora que eu queria dormir. Que sua vida fora dividida em 3 partes. Que na primeira trabalhou e ganhou dinheiro. Que na segunda se dedicou a igreja e que agora na terceira parte, comprara uma bicicleta e saiu pedalando pelo mundo. Já tinha atravessado os Estados Unidos de Leste a Oeste e a África de Norte a Sul. Agora estava atravessando a América do Sul. Tudo isso, logicamente em sua bicicleta. Foram horas falando, e realmente estava interessante. E eu me concentrando para entender seu inglês difícil, com sotaque alemão. Finalmente Lio fez uma pausa e eu agradeci pela conversa e dei boa noite. Mesmo assim não consegui dormir.

Barraca que dividi com o suíço Lio

Barraca que dividi com o suíço Lio

Meu colchão de ar permanecia furado e desconfortável. Como eu tinha interesse em alguns objetos de bateria, como lanterna, iPod, máquina fotográfica e relógio, a única forma de preservá-los do congelamento e fim da bateria era colocá-los para dormir comigo dentro do saco de dormir, o que aumentava o incomodo. E assim passei mais uma noite virando de um lado para o outro sem conseguir dormir direito.         Logicamente, também precisei sair da barraca duas vezes durante a madrugada para fazer xixi. Consequência dos vários litros de água que nos esforçávamos para beber o tempo todo. Sair da barraca durante a noite não era uma coisa tão simples, pois exigia sair do saco de dormir, onde estávamos apenas usando uma roupa leve, chamada segunda pele. Ai imediatamente começávamos a tremer de frio.  Precisávamos então botar as calças e casacos, sentados, pois a barraca é baixa. Depois e mais difícil, calçar a pesadas botas e amarrá-las.

Ai então ficar de joelhos e abrir os 3 zíperes, que lacravam a porta da barraca para não entrar vento. Sair engatinhando e fechar os 3 zíperes. Agora sim podia ficar de pé e sair caminhando no frio. Era realmente cansativa esta parte, mas não havia alternativa. Ao retornar, era necessário fazer o processo inverso.

Finalmente amanheceu! Tomamos nosso café da manhã regado com várias canecas de chá quente. Recebemos as orientações do Turco, nosso guia. Turco avisou, hoje será uma longa caminhada. ” Subiremos a montanha até o Cerro Bonete, um cume de 5.100 metros, e depois desceremos de volta até aqui. Usaremos botas duplas, para neve. Isso serve para acostumarmos nosso organismo aos 5 mil metros de altitude e ao uso destas botas, que além de pesadas, travam a articulação do tornozelo”.

Caminho ao Cerro Bonete

Caminho ao Cerro Bonete

 

As botas duplas eram literalmente isso mesmo. Após 3 meias, uma fina, uma média e uma grossa, você calça uma primeira bota que encobre o tornozelo. Depois, esta bota entra dentro de outra bota, de plástico duro e ainda maior, para receber a primeira. As botas duplas tem duas finalidades. Protegem os tornozelos das pedras que podem vir rolando da montanha em sua direção e funcionam como isolante térmico, para proteger os pés do congelamento. Isso funciona quase sempre, desde que as meias não fiquem molhadas.

Por baixo das botas, em trechos de neve, usam-se os chamados grampons, que são uma armação de metal, com diversos dentes virados para frente e para baixo, que cravam na neve, impedindo que se escorregue. Para combinar com as botas duplas, usamos 3 calças. A primeira chamada segunda pele, que é elástica e fica justa no corpo. Depois uma calça normal de escalada e por cima de tudo uma pesada calça impermeável. Para proteger a junção da terceira calça com as botas, usamos pesadas polainas, por cima da calça e da bota, para que não entre neve ou água nos calçados.

Já para proteger a parte superior era um esquema parecido. Uma segunda pele elástica. Uma camiseta para deixar passar o suor, uma malha para reter o calor, um casaco impermeável chamado corta vento e por cima um casaco pesado de frio. Duas luvas, uma em cima da outra. Na cabeça uma proteção para pescoço e orelhas ou uma balaclava, como a que os manifestantes e alguns motociclistas usam. Um gorro e o capuz se tiver nevando ou boné se tiver sol. Óculos escuros especiais são fundamentais, pois o brilho do sol refletido na neve é tão forte que pode até cegar.

Depois de tudo isso é só colocar a mochila nas costas, agarrar os bastões de caminhada e estávamos prontos para a escalada prevista para 10 horas. Não cheguei a pesar, mas acredito que entre botas, roupas e mochila com equipamentos, comida e pelo menos 3 litros de água, carregávamos cerca de 20 quilos extras ao nosso corpo durante a escalada.

Marchando, cerca de 20 kg entre roupas e mochila

Marchando, cerca de 20 kg entre roupas e mochila

 

Turco saiu marchando na frente e em seguida quase todos nós o seguimos em fila indiana. Até este momento duas baixas. A suiça Jane, retornou para Mendoza. O plano dela era este mesmo, ir apenas até Plaza de Mulas e depois retornar e Sebá, que não subiu, devido fortes dores de cabeça e enjôos.

Me coloquei ao final da fila, seguido apenas de Tito, um dos guias, que sintonizava um rádio de comunicação. Comecei a prestar atenção a conversa vinda do rádio. Um dos montanhistas, que estava 3 dias a nossa frente, em um acampamento a 6 mil metros de altitude,  aguardando um tempo favorável para tentar a escalada final ao cume do Aconcagua, estava passando seriamente mal. Edema pulmonar e congelamento dos pés e das mãos ! Pelo rádio seu guia chamava pelo helicóptero, para fazer um resgate.

Fomos marchando para cima e acompanhando as notícias vindas do aparelho.

 

Veterinário Wilson Grassi

 

Quarto dia – Um Vet No Aconcágua

Para variar minha noite de sono foi péssima. Como chegamos no dia anterior cansados e já escurecendo, Turco havia nos feito uma proposta.

Poderíamos ainda naquele horário, armar nos barracas e dormir em duplas, ou então, poderíamos todos, dividir uma tenda, que é maior e dormir juntos nela! Optamos pela tenda, porém ao esticar nossos sacos de dormir vimos que não cabíamos! Zohair, o Libanês, e Tadeu o brasileiro, tiveram a nobre iniciativa de sair no frio e montar sua própria tenda. Acertaram em cheio! Dormiram bem e não passaram frio de madrugada!

Zohair e Tadeu que acertaram ao armar sua própria tenda

Zohair e Tadeu que acertaram ao armar sua própria tenda

Os argentinos Eduardo e Seba, também encararam o esforço! O problema aí, foi que Sebá  passou muito mal durante a noite e vomitou dentro da pequena barraca, inclusive em cima de Eduardo. O resto do grupo ganhou um pouco mais de espaço para dormir na tenda, mas a noite foi péssima, pelo menos para mim! A tenda não era vedada contra o vento, como as pequenas barracas, e por isso o frio foi intenso. Encostamos nossas mochilas contra as portas da tenda para diminuir o problema mas não resolveu muito.

Improvisei um cabide com ganchos e pendurei minhas roupas na parede da tenda. Durante a madrugada as roupas congelaram. Alguns relógios também pararam de funcionar por congelamento. Sai da tenda duas vezes durante a madrugada para fazer xixi. Lá fora estava tudo coberto de neve. Finalmente amanheceu!

Acampamento em Plaza de Mulas

Acampamento em Plaza de Mulas

Graças a Deus teríamos um dia de folga! Descansar fazia parte do processo de aclimatação para resistir a altitudes maiores. Seria um dia inteiro em Plaza de Mulas. De atividades previstas, apenas as refeições e um check up médico para avaliar quem poderia prosseguir no dia seguinte! Quem tivesse disposição, poderia fazer pequenas caminhadas, sem sair do acampamento!

O Acampamento de Plaza de Mulas era uma mini cidade em barracas e tendas. Como a temporada de escalada estava na sua última semana, com o mal tempo se aproximando definitivamente, o número de barracas era já bem menor que em dezembro e janeiro, alta estação. Talvez umas 15 barracas e algumas tendas. As tendas serviam como cozinha, refeitório e posto médico. Tínhamos duas médicas de plantão por toda a temporada. As Dras. Vera e Flor.

Além disso havia uma tenda onde se podia fazer ligação telefônica e usar internet por via satélite. A ligação custava 13 dólares o minuto. Outra das tendas oferecia um banho quente de 3 minutos por 10 dólares. Fiz uma ligação para casa e busquei minhas coisas para tomar um banho depois de quase 6 dias sem nenhum. Quando me aproximei da tenda chuveiro começou a nevar. Desisti do banho. Fiquei com medo de tomar um banho quente e sair no gelado em seguida. Alias, quase ninguém do nosso grupo optou pelo banho, apenas o argentino Eduardo, que mesmo em condições adversas se mantinha asseado.

Passamos todos por um check up! Sebá, um dos membros mais animados e brincalhões do grupo estava péssimo. Enjoado e com fortes dores de cabeça. Ficaria de molho por pelo menos dois dias para tentar se recuperar.  Estava sendo animado pelo mexicano Guilhermo, que dizia que também ficara muito mal no início da expedição, mas que depois havia melhorado.

Quando passei pelo check up, minha pressão estava boa, eu me sentia cansado mas bem, sem dores de cabeça nem enjôo, mas tive uma noticia ruim. Minha oximetria continuava caindo, e chegara a apenas 79% de concentração de oxigênio no sangue. Isso realmente era pouco, lembrando que em São Paulo ela era de 94%. Mas como eu me sentia bem, ganhei o desejado carimbo médico me autorizando a prosseguir.

Passei o dia descansando, pois sabia que o dia seguinte, tirando a escalada final ao cume, era tido como o dia mais difícil da expedição.

Cume do Aconcágua, a 7 mil metros

Cume do Aconcágua, a 7 mil metros

 

Veterinário Wilson Grassi

Terceiro dia – parte B – Um Vet No Aconcágua

A caminhada continuava, já havia mais de 8 horas, e parecia não ter mais fim! Turco, nosso guia, anunciou a última parada! Tínhamos 10 minutos para descansar, tirar um pouco a mochila, hidratar e colocar casacos mais pesados, estava começando a nevar! A parada fez com que o grupo todo se juntasse novamente! Alguns membros eram muito atletas e sempre disparavam na frente. E isso não era uma questão de idade, mas sim de preparo físico. Tanto que Lio, o suíço, tinha 57 anos e era um dos mais ligeiros e resistentes!

Na montanha, centenas de metros acima podem significar quilômetros de caminhada

Na montanha, centenas de metros acima podem significar quilômetros de caminhada

Nossos 10 minutos voaram e logo ouvi o chamado do Turco:

? Tamo listos? Tamo listos? Bamo! bamo!!! Turco anunciou também que precisaríamos sair logo pois ainda teríamos uma surpresa para fechar o dia!

E assim saímos para a última parte da caminhada. Andamos cerca de 20 minutos contornando uma montanha a nossa direita, quando veio a grande surpresa! Ao fazermos a curva se abriu aos nossos olhos um grande elevação, rochosa, quase totalmente vertical, que olhando de baixo parecia ter pelo menos uns 300 metros de altura, mas verticais! Equivaleria a altura de um prédio de uns 100 andares!

Nosso próximo acampamento, estava no alto desta montanha, portanto, precisaríamos vencê-la antes de poder descansar! Penso que em circunstancias normais, esta escalada em trilhas, mas quase verticais, já seria muito exaustiva, mas agora, depois de quase 9h de caminhada, seria algo quase impossível! Fora isso, em montanhas, as vezes para subir 300 metros na vertical, precisamos andar quilômetros, ziguezagueando, de um lado a outro. E assim foi!

Resignado, pois não havia outra alternativa, abaixei a cabeça, finquei os bastões de caminhada no chão, e um passo após o outro, comecei a enfrentar a longa e íngreme subida!

Nosso acampamento em Plaza de Mulas

Nosso acampamento em Plaza de Mulas

Nesta hora encontrar um ritmo é essencial! Primeiro eu puxava o ar, para reunir forças, depois fincava os bastões, depois levantava uma perna de cada vez. Em seguida puxava o ar novamente, bastões e pernas, e assim por diante! O esforço era tanto, que esqueci que estava frio e nevando! E assim nosso grupo foi lentamente subindo a Rocha, em fila indiana, por mais de uma hora! Em alguns momentos meu cansaço era tanto que eu arqueava a costas e  apoiava a cabeça nos bastões de caminhada. Até aquele momento, fora sem duvida o maior esforço físico que eu fiz na minha vida!

Uma parte do grupo abriu alguns metros de distância acima, e outra ficou alguns metros a baixo de mim! Como a trilha era estreita, não havia como um passar a frente do outro!

Juntando sinceramente as últimas das últimas forças, venci os últimos metros da subida e pude ver a cerca de mais uns mil metros nosso novo acampamento, Plaza de Mulas, que ficava a 4.300 metros de altura. Pelo menos para mim, de longe o lugar mais alto que eu já havia estado até então. Dai em diante caminhei lentamente até o acampamento e fui direto para nossa barraca refeitório!

Nosso grupo na barraca refeitório. De verde, Turco, o líder da expedição!

Nosso grupo na barraca refeitório. De verde, Turco, o líder da expedição!

Os outros membros do grupo já haviam chegado alguns minutos antes de mim e já estava sentados tomando um chá quente para se revigorarem do dia exaustivo! Eu, cheguei tão cansado, mas tão cansado, que larguei a mochila e os bastões de qualquer jeito fora da barraca e literalmente me joguei no chão, virado para cima e com os braços abertos, em sinal de extremo cansaço!  Meus amigos perceberam a dificuldade que isso tinha sido para mim e o esforço que eu fizera, por não ser atleta como eles, e começaram a bater palmas para mim! Me dando os parabéns!

Francisco, um dos argentinos, montanhista experiente, me disse, com seu sotaque portenho:

Ílsson, agora você pode se considerar um verdadeiro montanhista! Parabéns!

Precisei de ajuda para levantar da posição deitado, pois se eu ficasse assim por muito tempo isso poderia ser prejudicial, mas permaneci no chão, agora sentado. Ganhei um copo de chá quente, e curti estar a 4.300 metros de altura, a caminho do cume do Aconcágua!

Veterinário Wilson Grassi

Terceiro dia – parte A – Um vet no Aconcágua

Após uma noite com varias horas de sono, já comecei a me sentir melhor! A cabeça doía bem menos e o enjôo passara! Talvez não tenha sido mais que 5 ou 6 horas de bom sono, mas fizeram a diferença! Tomamos nosso café da manha e colocamos as mochilas nas costas! Hoje o dia seria duro!  Nosso plano era sair definitivamente do nosso acampamento em Confluência a 3.400 metros de altura e seguir para nossa próxima base, a 4.300 metros, chamada Plaza de Mulas!

Paisagem da região de manhã

Paisagem da região de manhã

Confluência tinha este nome pois era o encontro de dois rios: Orcones Superior e Orcones inferior! Ambos traziam a neve derretida do alto da montanha, por caminhos diferentes e se juntavam naquele ponto, e eram os maiores afluentes do que viria a se tornar o Rio Mendoza!

Um fato interessante era que de manhã cedo, suas águas eram bem claras e tranquilas. Já na parte da tarde, se tornavam caudalosas e barrentas. Isso porque ao longo do dia o sol aquecia e derretia grandes quantidades de neve, que encorpavam os rios e reviravam o solo. Já Plaza de Mulas, tinha este nome pois era a última estação onde as mulas chegavam! Isso mesmo! Também me senti chateado com isso! Me propus a tentar fazer a expedição sem nenhum tipo de exploração animal mas não consegui! As organizações da expedições usavam transporte em Mulas, que levavam mantimentos até este acampamento! Portanto, levaram minha comida! Não que isso justifique o fato, mas haviam balanças no acampamento e um peso máximo de 40 quilos que uma Mula poderia carregar! Na maioria das vezes, elas eram muito fortes e passavam correndo, o que me faz pensar que talvez não fosse muito peso para elas! De qualquer forma, isso não justifica a exploração.

Antes de iniciar a caminhada, fiz mais uma medição da minha oximetria! Primeiro caíra de 94% para 88%. Agora caíra mais um pouco, para 86%! E a pressão arterial, me pareceu com um intervalo muito grande, 130 por 70! Mesmo assim, me sentia muito melhor que no dia anterior! Muito melhor!

Começando um longo dia de escalada

Começando um longo dia de escalada

Começamos a caminhada que estava prevista para 10 horas seguidas! De uma em uma hora, outras vezes de duas em duas, fazíamos pequenas paradas para beber água e comer alguma coisa, do kit lanche que levávamos em nossas mochilas!

O cenário era maravilhoso. Altas montanhas nevadas dos dois lados da trilha, que a mim parecia ser um leito de rio seco! Talvez este rio surja em determinada época do ano, ou talvez esteja seco a milhares de anos, sinceramente não me preocupei em perguntar aos guias, estava fascinado de mais com o caminho.

Ao final da tarde

Paisagem ao final da tarde

Na maior parte deste vale, seguíamos reto até perder de vista, sem atalhos. Isso permitiu que nos afastássemos uns dos outros, coisa que em outras circunstancias evitávamos! De minha parte fui deixando um grupo desaparecer a minha frente, e o grupo que vinha atrás, fez uma parada extraordinária para alguém passar protetor solar! Aproveitei e de repente me vi completamente sozinho no meio do vale, talvez a quilômetros distância de qualquer outro ser vivo, com um sol brilhante acima de mim, e enormes picos nevados à direita e à esquerda! Liguei meu iPod com minhas músicas preferidas enquanto marchava e de repente comecei a chorar de emoção!

Veterinário Wilson Grassi

Segundo dia – Um Vet no Aconcágua!

Na noite anterior cheguei ao acampamento de Confluência, a 3.400 metros de altitude! Havia chegado bem após uma caminhada íngreme, de 5 horas desde a entrada do parque!

Conheci meu grupo, que era composto de 15 pessoas! Sendo 4 suíços, 1 mexicano, 1 canadense, 1 americano, 2 brasileiros, contando comigo, 1 libanês e 5 argentinos! Fora mais 4 guias argentinos: Turco, o líder, Tito, Kochi e Rose!

Jantei com eles! Meu prato, uma opção vegetariana, servida para mim, para uma moça sueca e para o Libanês, que era muçulmano e também não comia carne, foi hambúrguer de cebola! E a bebida, suco de pêra e chá mate! Depois da refeição ganhei uma barraca só para mim, o que foi muito bom, pois os outros dividiam pequenas barracas em duplas!

Acampamento em Confluência

Acampamento em Confluência

Desmontei meu equipamento e tentei dormir! Tentei apenas! Não consegui! Minha noite foi péssima! Meu colchonete de ar, alugado, furou e o ar escapava, deixando ele fininho e dando para sentir as pedras tocando as costas, embaixo da barraca! Não tinha posição! Para piorar um pouco, o zíper do meu saco de dormir, também alugado as pressas, estava quebrado e não fechava! O frio intenso me obrigou a deitar usando um casaco grosso, que me tirava os movimentos! Foram pequenos cochilos, interrompidos pelo desconforto e pela necessidade de sair duas vezes da barraca de madrugada, para fazer xixi!

A barraca estava congelada por fora, com neve ao redor e sobre ela! Me  senti cansado apenas de calçar as botas, entrar e sair da barraca! Comecei achar que tinha algo errado comigo, quando da segunda vez que sai da barraca de madrugada, ao retornar, não à encontrava! Eram apenas umas 6 barracas daquele tipo! Amarelas, da marca Norte Face! Apenas 6, eu havia saído de uma delas há poucos minutos, e não sabia de qual delas! Comecei a examinar todas, estavam fechadas, e eu realmente não queria abrir uma barraca ocupada, acordar e assustar seu dono no meio da noite! Outro sintoma de que eu estava atordoado, foi a minha decisão de ficar das 5h as 7h horas perambulando no frio, até um dos guias me ver e eu pedir ajuda para localizar minha própria barraca! Ele, claro, me levou até ela e fiquei envergonhado, pois foi fácil demais!

Realmente eu estava meio confuso! Parecia que a altitude de 3.400 metros de Confluência estava me fazendo mal! Além disso, perdi minha segunda noite seguida de sono!

As 8h tomamos nosso café da manha, que era composto de pão com manteiga, sucos Tang e muito chá! Tínhamos a recomendação de tomar no mínimo 3 litros de líquidos por dia! Se possível, 4 litros! Alguns dos meus companheiros de expedição eram mais radicais com isso! Carregavam o tempo todo uma garrafa e se propunham a tomar até seis litros por dia, como Zohair, o Libanez! Eu, pelo nível do meu camel, que é uma mochila térmica para líquidos e  pelas minhas contas, mesmo me esforçando, raramente passava dos 2,5 litros diários!

De manha caminhamos sob o sol

De manhã, caminhamos sob o sol

Terminada nossa refeição da manha a atividade do dia foi uma caminhada montanha acima, rumo a uma parada chamada Plaza França, a cerca de 4 mil metros de altura e umas 8h de caminhada, entre ida e volta! Embora me sentisse cansado, me esforcei para acompanhar o ritmo do grupo, que depois percebi, era composto de vários atletas!

A paisagem era linda! Como quase todos os caminhos menos íngremes da montanha, parecia ser um leito de rio, seco, margeado por altas montanhas, lado a lado, com os picos cobertos de neve!

Andei junto com eles por duas horas seguidas! Na terceira hora comecei a ficar para trás, andando a um ritmo mais lento! Minha cabeça começou a doer e parecia que ia explodir! Tito, um dos guias, passou a me acompanhar de perto, por último da fila! Ao final da terceira hora de caminhada montanha acima, fizemos uma parada para descanso e Tito e Turco, percebendo que eu não estava bem, decidiram que eu deveria voltar para o acampamento na companhia de Tito, e procurar descansar! Aceitei de pronto, mas a volta não foi nada fácil! Mesmo na descida, me sentia fraco, a cabeça doendo e para piorar, comecei a me sentir nauseado! Seguimos em frente e após um total de 6h de caminhada estávamos de volta ao acampamento gelado! Cai de joelhos no chão e vomitei! Fui também pela primeira vez ao banheiro, que era um cabine de zinco, de 1,5 metros quadrados, com um vaso sanitário elevado sobre um balde! Tive diarréia! Estava péssimo!

A tarde sobre neve

A tarde sobre neve

Não sabia agora se era uma infecção gastrointestinal ou efeito da altitude! Mas sabia que não deveria ter pulado as duas primeiras etapas de aclimatação, que meus companheiros fizeram!

Depois disso tudo fui para minha barraca e consegui dar uma cochilada! Melhorando um pouco meu estado!

No final da tarde, quando o grupo completo voltou da caminhada, passamos por um check up médico! O Parque do Aconcágua é muito organizado! Existem médicos em dois acampamentos estratégicos!             Confluência e Plaza de Mulas! Nos nosso vistos, que podem ser de treking ou de ascensão ao cume, existem espaços que precisam ser periodicamente assinados pelos médicos dos acampamentos, com nossos parâmetros vitais e autorização dos médicos para continuar a escalada!

Ao passar pelo meu check up, já me sentia um pouco melhor! Menos dor de cabeça e menos enjôo! Minha pressão arterial que normalmente em São Paulo é 110 por 80, estava em 140 por 80. E minha oximetria, que é a saturação de oxigênio no sangue, que costuma ser de 94%, havia caído para 88%!

A noite jantamos na barraca refeitório da expedição! Comecei a conhecer melhor os colegas de caminhada! Todos muito simpáticos e gentis! Alguns mais falantes, como o brasileiro Tadeu e o Argentino Sebá! Outros muito introspectivos, como o Candense Gaitan e o Suíço, Lio!

Graças a Deus tive uma noite de sono mais profundo, embora interrompido duas vezes pela necessidade de sair da barraca relativamente quente, para fazer xixi a temperaturas negativas! Desta vez fiquei esperto, e coloquei várias pedrinhas no teto da minha barraca para não correr o risco de perde-lá novamente!

Veterinário Wilson Grassi

Primeiro dia

Escolhi o Aconcágua por ser a maior montanha do mundo fora da Ásia!! São quase 7 mil metros de altitude e temperaturas que podem ir de 40 graus positivos de dia a 25 graus negativos à  noite, com neve!  Existem 3 rotas principais de se chegar a seu cume! A Face Sul, dificílima! É uma escalada técnica, com cordas, onde os escaladores passam dias suspensos nas cordas!

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São quase 7 mil metros de altitude

Esta via de se chegar ao cume do Aconcágua só é usada pelos melhores e mais experientes escaladores do mundo, e ainda assim, vários morreram nela e estão lá congelados até hoje! Além da rota pela Face Sul, existem a Rota dos Polacos e a Rota Normal, a mais fácil, que eu escolhi!

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80% das pessoas desistem da subida

Digo fácil, pois não existem desafios técnicos! Os desafios são físicos e psicológicos! Ela pode ser feita caminhando-se, porém são cerca de 12 dias caminhando na subida. Sobre pedras e neve! Dormindo e comendo em acampamentos, de dia sob sol quente, de tarde e de noite, sob vento e neve!             Além disso, existem os efeitos da altitude, onde a pressão atmosférica é cada vez menor e o ar cada vez mais rarefeito, com menos presença de oxigênio! Por isso, mesmo a rota normal, não é uma escala fácil! Apenas cerca de 20% das pessoas que se propõem a segui-la conseguem chegar ao seu cume! Os outros 80% desistiram por estress, cansaço, doenças ou condições climáticas muito adversas!

Comecei minha expedição fazendo um opção que sabia poderia me custar caro mais tarde. Enquanto meu grupo começou o roteiro com um dia de descanso em Mendoza, a 700 metros de altitude, depois mais um dia de aclimatação em Fonte del Incas, a 2.400 metros de altitude e no terceiro dia seguiu para Confluentes, a 3.400 metros de altitude, já com seus corpos um pouco mais acostumados com a altitude, eu, por motivos profissionais que me prendiam a São Paulo, pulei as duas primeiras etapas!

Sai de São Paulo a Buenos Aires de madrugada, fiz uma conexão de algumas horas de lá para Mendoza, onde corri para o centro da cidade para alugar alguns equipamentos e conseguir o permisso, que é um visto de entrada na montanha. Viajei em seguida mais 3 horas de carro até a entrada do Parque do Aconcágua e encontrei meu guia!

Grassi e Tito (o guia), iniciando a subida do Aconcágua

Quando já estava bem cansado devido a ter perdido uma noite de sono e feito 3 viagens seguidas, coloquei a mochila nas costas e junto com ele caminhamos 5 horas subindo a primeira parte da montanha, até chegarmos a Confluência, nosso primeiro acampamento, que ficava a 3.400 metros de altitude!

Caminho para o primeiro acampamento

Caminho para o primeiro acampamento

Apesar do desgaste físico, caminhei surpreendentemente bem! Empolgado! Respirando o ar puro e apreciando as belas paisagens da montanha!

Me senti saudável e feliz!

Veterinário Wilson Grassi