Segundo dia – Um Vet no Aconcágua!

Na noite anterior cheguei ao acampamento de Confluência, a 3.400 metros de altitude! Havia chegado bem após uma caminhada íngreme, de 5 horas desde a entrada do parque!

Conheci meu grupo, que era composto de 15 pessoas! Sendo 4 suíços, 1 mexicano, 1 canadense, 1 americano, 2 brasileiros, contando comigo, 1 libanês e 5 argentinos! Fora mais 4 guias argentinos: Turco, o líder, Tito, Kochi e Rose!

Jantei com eles! Meu prato, uma opção vegetariana, servida para mim, para uma moça sueca e para o Libanês, que era muçulmano e também não comia carne, foi hambúrguer de cebola! E a bebida, suco de pêra e chá mate! Depois da refeição ganhei uma barraca só para mim, o que foi muito bom, pois os outros dividiam pequenas barracas em duplas!

Acampamento em Confluência

Acampamento em Confluência

Desmontei meu equipamento e tentei dormir! Tentei apenas! Não consegui! Minha noite foi péssima! Meu colchonete de ar, alugado, furou e o ar escapava, deixando ele fininho e dando para sentir as pedras tocando as costas, embaixo da barraca! Não tinha posição! Para piorar um pouco, o zíper do meu saco de dormir, também alugado as pressas, estava quebrado e não fechava! O frio intenso me obrigou a deitar usando um casaco grosso, que me tirava os movimentos! Foram pequenos cochilos, interrompidos pelo desconforto e pela necessidade de sair duas vezes da barraca de madrugada, para fazer xixi!

A barraca estava congelada por fora, com neve ao redor e sobre ela! Me  senti cansado apenas de calçar as botas, entrar e sair da barraca! Comecei achar que tinha algo errado comigo, quando da segunda vez que sai da barraca de madrugada, ao retornar, não à encontrava! Eram apenas umas 6 barracas daquele tipo! Amarelas, da marca Norte Face! Apenas 6, eu havia saído de uma delas há poucos minutos, e não sabia de qual delas! Comecei a examinar todas, estavam fechadas, e eu realmente não queria abrir uma barraca ocupada, acordar e assustar seu dono no meio da noite! Outro sintoma de que eu estava atordoado, foi a minha decisão de ficar das 5h as 7h horas perambulando no frio, até um dos guias me ver e eu pedir ajuda para localizar minha própria barraca! Ele, claro, me levou até ela e fiquei envergonhado, pois foi fácil demais!

Realmente eu estava meio confuso! Parecia que a altitude de 3.400 metros de Confluência estava me fazendo mal! Além disso, perdi minha segunda noite seguida de sono!

As 8h tomamos nosso café da manha, que era composto de pão com manteiga, sucos Tang e muito chá! Tínhamos a recomendação de tomar no mínimo 3 litros de líquidos por dia! Se possível, 4 litros! Alguns dos meus companheiros de expedição eram mais radicais com isso! Carregavam o tempo todo uma garrafa e se propunham a tomar até seis litros por dia, como Zohair, o Libanez! Eu, pelo nível do meu camel, que é uma mochila térmica para líquidos e  pelas minhas contas, mesmo me esforçando, raramente passava dos 2,5 litros diários!

De manha caminhamos sob o sol

De manhã, caminhamos sob o sol

Terminada nossa refeição da manha a atividade do dia foi uma caminhada montanha acima, rumo a uma parada chamada Plaza França, a cerca de 4 mil metros de altura e umas 8h de caminhada, entre ida e volta! Embora me sentisse cansado, me esforcei para acompanhar o ritmo do grupo, que depois percebi, era composto de vários atletas!

A paisagem era linda! Como quase todos os caminhos menos íngremes da montanha, parecia ser um leito de rio, seco, margeado por altas montanhas, lado a lado, com os picos cobertos de neve!

Andei junto com eles por duas horas seguidas! Na terceira hora comecei a ficar para trás, andando a um ritmo mais lento! Minha cabeça começou a doer e parecia que ia explodir! Tito, um dos guias, passou a me acompanhar de perto, por último da fila! Ao final da terceira hora de caminhada montanha acima, fizemos uma parada para descanso e Tito e Turco, percebendo que eu não estava bem, decidiram que eu deveria voltar para o acampamento na companhia de Tito, e procurar descansar! Aceitei de pronto, mas a volta não foi nada fácil! Mesmo na descida, me sentia fraco, a cabeça doendo e para piorar, comecei a me sentir nauseado! Seguimos em frente e após um total de 6h de caminhada estávamos de volta ao acampamento gelado! Cai de joelhos no chão e vomitei! Fui também pela primeira vez ao banheiro, que era um cabine de zinco, de 1,5 metros quadrados, com um vaso sanitário elevado sobre um balde! Tive diarréia! Estava péssimo!

A tarde sobre neve

A tarde sobre neve

Não sabia agora se era uma infecção gastrointestinal ou efeito da altitude! Mas sabia que não deveria ter pulado as duas primeiras etapas de aclimatação, que meus companheiros fizeram!

Depois disso tudo fui para minha barraca e consegui dar uma cochilada! Melhorando um pouco meu estado!

No final da tarde, quando o grupo completo voltou da caminhada, passamos por um check up médico! O Parque do Aconcágua é muito organizado! Existem médicos em dois acampamentos estratégicos!             Confluência e Plaza de Mulas! Nos nosso vistos, que podem ser de treking ou de ascensão ao cume, existem espaços que precisam ser periodicamente assinados pelos médicos dos acampamentos, com nossos parâmetros vitais e autorização dos médicos para continuar a escalada!

Ao passar pelo meu check up, já me sentia um pouco melhor! Menos dor de cabeça e menos enjôo! Minha pressão arterial que normalmente em São Paulo é 110 por 80, estava em 140 por 80. E minha oximetria, que é a saturação de oxigênio no sangue, que costuma ser de 94%, havia caído para 88%!

A noite jantamos na barraca refeitório da expedição! Comecei a conhecer melhor os colegas de caminhada! Todos muito simpáticos e gentis! Alguns mais falantes, como o brasileiro Tadeu e o Argentino Sebá! Outros muito introspectivos, como o Candense Gaitan e o Suíço, Lio!

Graças a Deus tive uma noite de sono mais profundo, embora interrompido duas vezes pela necessidade de sair da barraca relativamente quente, para fazer xixi a temperaturas negativas! Desta vez fiquei esperto, e coloquei várias pedrinhas no teto da minha barraca para não correr o risco de perde-lá novamente!

Veterinário Wilson Grassi

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