Parte final – Um Vet No Aconcágua

Nossa marcha começou às 8h da manhã e seguia em um bom ritmo! Longos trechos de subida, alternados com curtos trechos de plano ou leve descida. Estávamos subindo cerca de 800 metros na vertical, e que daria cerca de 20 quilômetros de trilhas.

Seguindo um conselho de Tito, comecei a administrar minhas energias. O segredo, segundo ele, era não deixar a frequência cardíaca disparar. Se ela ameaçava disparar, eu procurava diminuir o ritmo da caminhada para compensar.

E assim transcorremos bem as primeiras 6 horas de escalada. A paisagem realmente era incrível. Montanhas nevadas por todos os lados. Um trecho em especial me chamou a atenção, já próximo ao cume do Cerro Bonete a 5 mil metros de altitude: Os chamados Penitentes!

Eram paredes de gelo que se erguiam do chão. Segundo Tito, uma ocorrência exclusiva do Aconcágua, relacionada com a extrema falta de umidade do ar, que criava estes artefatos de gelo.

Grassi atravessando os Penitentes

Grassi atravessando os Penitentes

Além disto existe outra peculiaridade que cria dificuldade para se escalar nesta região. A coluna de ar e consequentemente de oxigênio é proporcionalmente menor no Aconcágua que no Everest, considerando-se a mesma altitude nas duas montanhas.

O Everest, por estar em latitude mais próxima da linha do  Equador tem um coluna atmosférica com vários quilômetros a mais que o Aconcágua, que está mais próximo dos trópicos. Ou seja, a quantidade de oxigênio disponível para se respirar no Aconcágua a 7 mil metros, equivale a mesma quantidade no Everest a 8 mil metros. Isso pode ser comprovado também pelo fato de praticamente não existir vegetação nem fauna, no Aconcágua a partir de 5 mil metros de altitude.

Nesta hora eu já contava mais de 8 horas de subida, e estava ficando para trás do grupo. Mesmo com a tática de economizar energia e não deixar subir a frequência respiratória, estava difícil para mim acompanhar nosso grupo de atletas. Tito mais uma vez ficou comigo e após atingirmos cerca de 5 mil metros de altitude, resolvermos iniciar a decida na frente dos outros. E assim foi. Continuamos nossa marcha mas agora em descida, o que deveria ter sido mais fácil, mas não foi. O cansaço acumulado e a falta de sono dos últimos dias começou a cobrar seu preço. Mesmo da descida precisei andar devagar, parecia que as forças estavam se esgotando. Mais uma hora de descida e fui alcançado pelos outros escaladores que iniciaram a descida bem depois de mim. Novamente fui ultrapassado por quase todos eles. Apenas Guilhermo, o mexicano, também ficou para trás além de mim.

Agora eu já contava 12 horas de caminhada e meus passos estavam bem lentos. Comecei a distinguir o acampamento a cerca de mil metros de distancia, que foram os mais longos da minha vida. Nesta hora um passo meu não vencia mais que 40 centímetros de cada vez. Talvez o tamanho das pesadas botas de neve.

Tito queria carregar minha mochila, para me ajudar. Não aceitei! Mais algumas dezenas de metros ele insistiu e eu aceitei. Minhas forças haviam acabado de uma forma que eu jamais imaginei. Meu desejo era sentar no chão e ficar ali. Não podia, pois já estava escurecendo e nevando. Comecei a tossir. As pernas não obedeciam mais. A mente também não funcionava direito. Por mim eu ficaria parado ali para sempre. Era um vazio só o que eu sentia. Tito me acordou com seu chamado insistente: Ilsson, bamo, bamo!

Aparecia mais algum resto de energia e eu conseguia dar mais alguns passos tímidos! E assim, após um tempo que me pareceu a eternidade, consegui chegar até nossa barraca refeitório! Diferente da outra vez que fiquei exausto e me joguei no chão, desta vez consegui sentar. Era diferente! Não era ruim! Eu não estava ofegante! Nem puxando ar de boca aberta, nada disso! Estava inerte! Sem energia nenhuma! Agora sentado e com o olhar perdido!

Quando dei por mim, os guias haviam chamado a equipe médica do acampamento!

Após um exame inicial, fui carregado por dois guias até a tenda médica! Tomei uma injeção de corticóides, dois comprimidos de diuréticos e fiz uma inalação!

As Dras. Vera e Flor me diagnosticaram com Mal da Montanha! Auscultaram meu pulmão e encontraram um edema pulmonar. Era para mim o final da escalada! Seria preciso descer a baixas altitudes para que meu organismo se equilibrasse novamente! Chamaram pelo rádio e pediram um helicóptero de resgate! Dormi no alojamento médico e assim que o sol nasceu ouvi o barulho do helicóptero pousando! Já me sentia melhor mas a Dra Vera foi categórica. Disse que eu melhorei por conta dos medicamentos, mas que se insistisse em continuar subindo, os sintomas de edema pulmonar e fadiga extrema iriam piorar e um resgate seria mais difícil!

Resignado, enfiei a mão dentro da minha mochila e tirei as 3 bandeiras, propósito da minha escalada! A bandeira da SVB – Sociedade Vegetariana Brasileira, a bandeira do FNPDA – Forúm Nacional de Proteção e Defesa Animal, e a bandeira da Anclivepa – Associação Nacional dos Clínicos Veterinários de Pequenos Animais e as entreguei para 3 amigos que eu fizera: O brasileiro Tadeu, o argentino Francisco e o Mexicano Guilhermo.

Eles agora estavam encarregados de terminar o que eu não consegui e levar estas bandeiras e o que eles significam ao ponto mais alto do planeta fora dos Himalaias! Em seguida fui levado ao helicóptero que imediatamente decolou!

foto

Todas as paisagens que eu vira por baixo, enquanto caminhava, agora eu via de cima, enquanto o helicóptero sobrevoava os picos nevados do Aconcágua!

Claro que fiquei triste, mas valeu a pena mesmo assim.

Agradeço o apoio de todos que torceram por mim! Peço desculpas por decepcionar os que acreditaram que eu conseguiria, e prometo que este não foi o fim!

Pico do Aconcágua

Pico do Aconcágua

Vou descansar, me preparar melhor, e na próxima temporada, tentar novamente!

Veterinário Wilson Grassi

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One thought on “Parte final – Um Vet No Aconcágua

  1. Que pena que não completou a escalada, mas acredito que foi uma incrível aventura e que aprendeu mto com isso. Estávamos te acompanhando e torcendo por vc.
    Que bom que esta bem, isso que importa!

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